domingo, 27 de novembro de 2011

MORBIDADES



Minha vida é cercada de morte. Sempre foi.
Talvez a de todo mundo seja, embora nem sempre isso seja tão óbvio
A morte se apresentou pra mim quando tinha oito anos e não se afastou mais
Sempre esteve ali, como sombra da vida: silenciosa, mas permanente
Desculpe se o assunto causa mal estar, ou evitamos falar dele, mas pra mim é impossível um dia que seja sem uma gota de morbidez
Minha rotina é a doença, o câncer
Me especializei em observar a dor,  ensaio experimentá-la, tento achar seu silêncio
E cada vez que encaro no espelho a morte, meu perfil,
a vida explode em mim de uma forma insensata
apelando: “Me experimente, por favor, antes de me perder...”
Por isso sigo me perdendo nas palavras, pessoas, lugares e canções
Me perco na minha lucidez e na minha loucura
Nas esquinas onde há amor, mas também solidão
Sentido, acréscimo, propulsão
Não posso mais viver sem ter a sensação do seguir adiante
A vida paralítica é pior que a morte


6 comentários:

  1. Um dia serei uma caveira que descansa na grama, ao som da serenata de um pássaro desgarrado não mais duradouro que o sonho de ontem a noite.

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  2. Caro anônimo, não sei quem é você, mas me encantei com sua doçura e delicadeza ao falar da morte, assunto que tanto me pertence. E nesse momento, em que tudo pra mim parece embotado, raso e pobre de significado, a poesia ainda desperta o sentimento de existem por aí outros ou outras Alices, capazes de retribuir, espontaneamente, com sensibilidade. A grama, o canto do pássaro, o sonho, tudo isso, mesmo no contexto da morte, me parece mais suave que o entorno árido e hostil da vida curarizada. Espero vê-lo(la) mais por aqui...

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  3. Querida Alice (desculpe-me por tamanha intimidade, mas seu texto acarreta esse efeito colateral), essa retribuição que você afirma sentir vinda desse post é o mínimo que uma pessoa que foi puxada da morte em vida (ativa e passiva, combustão e congelamento) poderia fazer.
    Mantenha seu sorriso tenro, nada é impossível aos que sorriem.

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  4. Ou será que nada é impossível aos que fazem os outros sorrirem? :-)

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  5. Com certeza, quem faz o outro sorrir doa a si mesmo em forma de felicidade. Você é uma dessas, é por isso que Deus e o Universo a recompensarão.

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  6. Desculpe anônimo pela demora na resposta, mas estive refletindo sobre esse assunto durante todo esse tempo... Não espero nenhuma recompensa, sério... Nem me sinto merecedora de nada. Repito, sou comum. Às vezes digo coisas certas, mas também sou capaz das maiores burradas. Não sou amada por todos e também erro e sofro como qualquer mortal. Minha recompensa é estar viva e poder pensar com alguma coerência. Eu que tenho que recompensar o universo...

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