Adoro Martha Medeiros.
Costumo dizer que ela é minha analista de bolso.
Suas histórias são tão minhas... Seus textos tão claros e exatos.
Poucas metáforas, a vida sincera, sem joguinhos e segundas intenções.
Preto no branco.
Minha combinação favorita.
“Estava ali, por que precisava dizer que te amo?”
Minha frase predileta da peça “Doidas e Santas”.
Gestos, ações interpretadas...
Um paga em libras, enquanto o outro recebe em yuans...
Não existe fórmula de como amar.
E se o amor for vermelho ao invés de roxo, se for uma mulher ao invés de um homem, se não te manda flores do campo, mas abre a porta do carro pra você entrar?
E se esse amor, todo torto, não encomendado, fez a cópia da chave da sua casa e você nem pensa em mudar a fechadura?
Que batata quente, meu bem...
Hummm...
Me desculpe Martha, querida.
Mas, nesse exato momento, a metáfora toda conta de todo meu ser!
Me imagino degustando lentamente... vagarosamente... sem a menor pressa... esse simples legume problemático que transformarei em iguaria.
Com uma faca bem afiada rasgo, sem piedade, a batata bem quente no meio. Escapa a fumaça. A casca já começa a se desfazer. Lubrifico com manteiga, que prontamente derrete e, em seguida, recheio com catupiry que percorre as duas bandas, escorregando. Jogo com firmeza os pedaçinhos de bacon crocante, que se espalham com exatidão inesperada. Contrasto com rodelinhas verdes e simétricas de cebolinha. O toque final se dá com o aroma perfumado de pimenta preta em forma de pó e flocos de sal pra aflorar o sabor.
Moral da história: mesmo uma improvável batata quente pode ser fonte de inesgotável prazer.

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