quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ANATOMIA POÉTICA

Eu nasci pra ser poeta
Prefiro o tic tac infantil descompassado
Às bulhas, cliques e sopros discriminados
Gosto do sangue
Vermelho, azul, violeta
das hemácias enfileiradas levadas pela correnteza
dos coágulos, da fibrina
Que perfeição seria!
Se não fosse o carnaval, a batucada e a serpentina...

Só nasci pra ser poeta
Me adoece a poeira dos livros
Embora busque na atmosfera mística da biblioteca meu abrigo
Me perco entre páginas e capítulos
E se pergunta se entre mitocôndrias, células e bactérias, esqueça
Prefiro a aventura de bruxas, princesas e mulas sem cabeça

Poeta...
Quero transfundir no meu corpo anêmico
a imensidão da primeira célula
aquela secreta que solitária escrevia os primeiros versos
e por isso fez-se tão logo eterna
Pequena e bela,  cor da primavera
Quem diria que de tanta graça, surgiria a alquimista, profeta e palhaça
Que entre frascos, rótulos e cachaças
Busca dormir a dor que pelo outro passa

Será que nasci pra ser poeta?
Versos, canções, receitas e prescrições
Eis quem sou, ciência e paixão
Um velho sábio ermitão, dançando contente no meio do salão
Seguindo o ballet da vida...
Tentamos nós, doutores letrados, bailarinos engessados
Aprender, com movimentos tabéticos,
A poesia da vida,
Aquela só explicada por aqueles que, sobreviventes, na vida souberam morrer

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